Além de consultoria em vendas e marketing, que exerço como profissão, tenho a atividade de psicanalista, sou terapeuta holístico, a qual pratico por paixão. Sem ferir a ética inerente ao exercício quase sacerdotal deste trabalho, quero relatar hoje um episódio que vivenciei, tem alguns anos, e me veio à mente ao ver passeando na rua, ontem, um casal onde a mulher tinha uma beleza exuberante e o homem que a acompanhava era, no mínimo, uma figura estranha...aparentando ser bem mais velho e seus traços, nada harmônicos, permitem-nos catalogar como um ser humano muito feio mesmo.
Caminhavam abraçadinhos, como dois jovens namorados e, as demonstrações explícitas de carinho, deixavam, sem sombra de dúvidas, concluir que estavam perdidamente apaixonados.
Estava em meu consultório quando a paciente do primeiro horário da tarde, se fez anunciar com pontualidade britânica, ao entrar fiquei deslumbrado com a sua beleza; uma mulher alta, cabelos cor de mel, pele bronzeada e olhos de um azul claro da cor do céu de verão ao amanhecer. Um sorriso, rápido e nervoso, deixou visualizar dentes muito brancos, como das modelos que fazem comercial de creme dental, alinhamento perfeito, como tudo aliás naquela mulher de corpo escultural.
Em seu aperto de mão breve e vigoroso, pude perceber que estava muito nervosa, sua mão estava gelada e transpirando. Depois das apresentações, já que era sua primeira visita ao meu consultório,
expliquei como atuava, de maneira nada ortodoxa, diga-se de passagem, ela já tinha uma ideia do meu método de atendimento, comentado por uma amiga que havia sido minha paciente e a qual havia me indicado. - Questionei o que a trazia ao meu consultório e como poderia ou imaginava que eu poderia contribuir para a solução de seus problemas.
Ela me contou em detalhes, que vou resumir aqui, como estava sofrendo com pressões familiares e de amigos pessoais e colegas de trabalho, todos absolutamente a censuravam de forma exacerbada por haver deixado o marido e um casamento de quatro anos para viver com um homem bem mais velho e, ela própria, considerava de uma aparência muito feia mas, com o qual se sentia feliz como nunca antes houvera se sentido em sua vida. Estava começando a sentir-se em dúvida se retornava ao antigo marido, um bom homem, mas que não a realizava em nenhum aspecto e ficava em paz com todos que a rodeavam ou, se perseverava no seu novo relacionamento que estava completando dois anos e rompia com todos, desde familiares até colegas do trabalho e amigos em geral. Queria um parecer, um conselho, um direcionamento, estava sentindo-se perdida.
Respirei fundo e, depois de alguns segundos de silencio, contei para ela a estória do sapo e da rosa, que agora vou contar a todos (é possível que muitos conheçam mas, é linda).
O sapo era amigo de uma linda rosa e passavam seus dias conversando muito com ela. Um dia próxima da roseira, duas margaridas e uma cobra conversavam sobre como a dupla era estranha uma rosa tão linda e exuberante amiga de um sapo de aspecto tão asqueroso. A rosa ouviu este diálogo e decidiu que tinham razão e mandou o sapo nunca mais aparecer ali....o sapo era muito apaixonado pela rosa mas, mesmo sofrendo muito, aquiesceu ao pedido e se afastou. Alguns dias depois, o apaixonado sapo não resistiu e voltou ao lugar onde vivia sua linda rosa. Seu coração ficou apertado, a ex-bela flor estava caída, suas pétalas se espalham pelo chão, ao redor e ela estava definhando com os ataques das moscas que antes o seu amigo sapo se incumbia de transformar em refeição. Ele também vinha da lagoa próxima e se chacoalhava perto dela mantendo-a molhada mesmo sob o calor do sol, isso várias vezes ao dia. A rosa, quase sem forças, pediu perdão ao sapo e suplicou que ele nunca mais se afastasse dela porque era alguém que ela havia descoberto amar e só ele a mimava e protegia, além de ser um companheiro fiel....
Concluindo, disse a minha mais nova paciente, a pouca importância das aparências em face dos nossos verdadeiros valores e daquilo que realmente é de valia na vida. Disse-lhe finalmente que a resposta estava dentro do seu coração, bastava-lhe ouvi-lo e seguir suas orientações.
Um sorriso diferente aflorou nos lábios da minha paciente e um brilho nos olhos me fizeram supor que havia alcançado o objetivo...Ela nunca mais voltou e, dois meses depois me ligou e para me contar que estava muito feliz, vivendo seu romance com o seu "sapo", que era tudo de bom, em outro emprego, em outro bairro da nossa cidade e, aos poucos, as pessoas que a queriam bem estavam aceitando o seu novo relacionamento. Foi o mais rápido tratamento que realizei até hoje, com final, como todos, graças à Deus, feliz.
